Série: Igrejas de Apocalipse - Pérgamo

Quero abrir uma série para estudarmos juntos sobre as igrejas citadas nas cartas, em apocalipse. Vamos começar por Pérgamo.
A Igreja de Pérgamo vivia em um ambiente onde seguir a Cristo não era simples. Cercada por cultos pagãos, pela influência do Império Romano e por uma cultura que exigia lealdades contrárias à fé cristã, aquela comunidade enfrentava uma pressão constante. Mesmo assim, Jesus reconheceu sua fidelidade. Eles não haviam negado o nome de Cristo, nem mesmo diante da morte de Antipas, que Jesus descreve como uma testemunha fiel.
Mas havia um problema. Enquanto alguns permaneciam firmes, outros começavam a aceitar ensinamentos e práticas que não correspondiam à Palavra de Deus. A igreja que havia resistido à perseguição estava começando a ceder à acomodação.
Essa é uma das mensagens mais importantes da carta de Jesus à Igreja de Pérgamo. Nem sempre o maior perigo para a Igreja está naquilo que vem de fora, mas pode começar quando nos acostumamos tanto com os valores ao nosso redor que já não percebemos o quanto eles estão moldando nossa maneira de pensar e viver. Afinal, é possível permanecer dentro da igreja e, ainda assim, começar a negociar aquilo que deveria permanecer inegociável.
Ambiente contrário à fé
“Sei onde você vive, onde está o trono de Satanás. Contudo, você permanece fiel ao meu nome.”
Apocalipse 2:13 (NVI)
Para nos situarmos geograficamente, Pérgamo era uma cidade importante da Ásia Menor, região que corresponde principalmente ao território da atual Turquia. Além de sua relevância política e cultural, era marcada pela presença de templos dedicados a diversas divindades e pelo culto ao imperador romano. Naquela sociedade, religião e política estavam profundamente relacionadas, e demonstrar devoção ao imperador podia representar uma expressão pública de lealdade ao sistema romano.
É nesse contexto que Jesus diz conhecer o lugar onde aquela igreja vivia. A expressão “trono de Satanás” aponta para o ambiente de intensa oposição espiritual e religiosa que cercava os cristãos. Eles estavam inseridos em uma cultura com valores e práticas que competiam diretamente com a lealdade que pertencia a Cristo. Ainda assim, Jesus reconheceu que eles não haviam abandonado a fé, nem mesmo quando Antipas foi morto por causa de seu testemunho.
A história de Antipas nos lembra que a fidelidade nem sempre é acompanhada de reconhecimento humano. A Bíblia não apresenta muitos detalhes sobre ele, mas Jesus fez questão de chamá-lo de Sua fiel testemunha. Ele talvez fosse desconhecido para o mundo, mas não era desconhecido para Cristo. A fidelidade não depende de fama, influência ou aprovação, o que importa não é o quanto somos reconhecidos pelas pessoas, mas a Quem pertencemos, especialmente quando permanecer fiel tem um custo.
Se acostumar com o desaprovado
“Tenho, porém, contra você algumas coisas: você tem aí pessoas que se apegam aos ensinos de Balaão...”
Apocalipse 2:14 (NVI)
Apesar de reconhecer a fidelidade da igreja, como um todo, Jesus também apontou aquilo que precisava ser corrigido. Alguns estavam tolerando ensinamentos que conduziam à idolatria e à imoralidade. Para explicar esse problema, Ele mencionou Balaão, cuja história aparece em Números 22–25. Balaão não conseguiu amaldiçoar Israel, mas seu conselho acabou relacionado à sedução do povo para práticas que os afastaram de Deus. O que não havia sido destruído por uma ameaça externa acabou se tornando uma armadilha dentro do próprio povo.
Essa é uma diferença importante: uma coisa é viver em uma sociedade que não compartilha da nossa fé, outra é começar a aceitar, dentro da comunidade cristã, aquilo que contradiz os ensinamentos de Cristo. O problema de Pérgamo não era simplesmente estar cercada por uma cultura pagã, mas permitir que parte daquela cultura determinasse o que poderia ou não ser tolerado entre os cristãos.
(Jesus também menciona os nicolaítas, associados a práticas e ensinamentos que Ele condenava, embora não tenhamos informações históricas suficientes para afirmar todos os detalhes sobre esse grupo.)
O perigo da acomodação é que ela nem sempre parece uma ameaça. A perseguição costuma ser mais fácil de identificar, porque a pressão para abandonar a fé é explícita. A acomodação, por outro lado, acontece aos poucos. Começamos fazendo pequenas concessões para evitar conflitos, conquistar aprovação ou simplesmente nos adaptar. Quando percebemos, já estamos defendendo coisas que antes reconheceríamos como incompatíveis com a Palavra. Por isso, Jesus se apresenta à igreja como aqu’Ele que tem a espada afiada de dois gumes em Apocalipse 2:12, um pouco antes, em Apocalipse 1:16, João já tinha visto uma espada saindo da boca de Cristo. Isso mostra que Cristo julga pela Sua palavra, ela é o padrão pelo qual discernimos o que deve ser corrigido, mesmo quando a cultura ao redor nos diz o contrário.
Determinando a identidade
“Não se amoldem ao padrão deste mundo, mas transformem-se pela renovação da sua mente...”
Romanos 12:2 (NVI)
A carta à Igreja de Pérgamo não nos chama a fugir do mundo, mas a aprender a viver nele sem permitir que ele se torne nosso senhor. Isso exige discernimento. Precisamos saber quando estamos sendo contrariados por causa da nossa fé e quando estamos simplesmente tendo nossas opiniões questionadas, existem diferenças entre defender a verdade e tratar com desprezo quem pensa diferente. Jesus não abandonou a verdade para ser aceito, mas também não deixou de agir, com amor e mansidão, ao ensinar o caminho de Deus.
Estamos vivendo um momento no Brasil e no mundo que trata muito sobre política e religião. Essa reflexão também alcança a maneira como lidamos com essas diferenças ideológicas. É fácil transformar opiniões em identidade e começar a enxergar quem discorda de nós como um inimigo. Mas nenhum candidato merece a lealdade que pertence a Cristo, nenhum partido pode ocupar o lugar da Igreja e nenhuma ideologia deve se tornar substituta do Evangelho. Ao mesmo tempo, nossa posição política não pode ser tratada como prova automática de fidelidade cristã. Cristo não morreu por um partido, Ele morreu por pecadores. Podemos defender nossas convicções sem perder o amor, respeitar a liberdade das pessoas sem abandonar a nossa fé e reconhecer que não somos nós quem convencemos o coração humano, mas o Espírito Santo.
Jesus terminou Sua mensagem a Pérgamo com a promessa do maná escondido e de uma pedra branca com um novo nome aos fiéis (Apocalipse 2:17). Em uma cidade cercada por lealdades concorrentes, essas imagens apontavam para a provisão de Deus e para a identidade concedida por Cristo. A cultura poderia tentar definir quem aqueles cristãos deveriam ser, mas sua identidade não precisava ser negociada para que encontrassem sustento ou aceitação. Da mesma forma, não precisamos fazer acordos com aquilo que nos afasta de Deus por medo de perder alguma coisa.
A grande lição de Pérgamo é que a Igreja não vence apenas quando resiste à perseguição, mas também quando permanece fiel durante os períodos de acomodação. É relativamente fácil dizer que morreríamos por Cristo, a pergunta é se estamos dispostos a viver por Ele sem negociar Seus ensinamentos. Antes de apontarmos para o que está errado do lado de fora, precisamos examinar o que estamos permitindo dentro de nós e da nossa comunidade. Aquilo que está vazio por dentro acaba sendo preenchido pelo que encontra ao redor. Por isso, precisamos nos fortalecer na Palavra, aprofundar nossa comunhão com Deus e permitir que Cristo forme nossa identidade. A Igreja foi chamada para estar no mundo, amar as pessoas e anunciar o Evangelho, mas sem se tornar indistinguível dele. Permanecer fiel é continuar pertencendo a Cristo, mesmo quando isso significa não pertencer aos padrões que o mundo tenta nos impor.

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Rapha Abreu é Jornalista e Produtora cultural, e faz parte da equipe de marketing, redação e produção de conteúdo da Mr. Rocco.


