Se Jesus é Deus, por que Ele orava?

A Bíblia nos apresenta duas verdades simultâneas: Jesus é plenamente Deus e plenamente homem. “Aqu'Ele que É a Palavra tornou-Se carne e viveu entre nós” (João 1:14, NVI). Ele não deixou de ser Deus ao se tornar homem. Ele entrou na nossa realidade e experimentou a condição humana: sentiu fome, cansaço, tristeza, chorou e sofreu. Foi tentado, mas nunca pecou.
Por isso, quando observamos Jesus orando, não estamos vendo um Deus que precisava descobrir Quem era. Estamos vendo o Filho vivendo em perfeita comunhão com o Pai e nos revelando, através da própria vida, como deve ser uma existência completamente dependente de Deus.
Comunhão com o Pai
“Eu e o Pai somos um.”
João 10:30 (NVI)
Jesus não orava para Si mesmo. O Filho falava com o Pai. A própria relação entre o Pai e o Filho nos mostra que a oração de Jesus fazia parte de Sua comunhão perfeita com Deus. Sua vida não era marcada pela independência, mas por uma constante orientação para o Pai.
Mesmo sendo Deus, Jesus escolheu viver a experiência humana em submissão e dependência. Ele poderia agir por conta própria, mas demonstrava continuamente que Sua missão estava ligada à vontade do Pai. Em João 5:19, Ele afirma que o Filho não pode fazer nada de Si mesmo, mas somente aquilo que vê o Pai fazer. Isso não significa falta de poder ou inferioridade em sua natureza divina, mas revela a perfeita unidade entre Pai e Filho e a obediência de Cristo em Sua missão terrena.
A oração, então, não era uma atividade religiosa que Jesus acrescentava à Sua agenda. Era expressão do relacionamento. Ele não orava porque Lhe faltava poder; orava porque escolheu viver em perfeita comunhão com o Pai. E se Jesus, em Sua humanidade, não tratava a comunhão com Deus como algo opcional, por que nós tratamos?
Antes de grandes decisões
“Num daqueles dias, Jesus saiu para o monte a fim de orar, e passou a noite orando a Deus.”
Lucas 6:12 (NVI)
Antes de escolher os doze discípulos, Jesus passou a noite em oração. Antes de uma decisão que teria consequências para o ministério que estava iniciando, Ele se retirou para estar com o Pai.
Isso confronta diretamente a maneira como muitas vezes conduzimos nossa própria vida. Tomamos decisões, fazemos planos, escolhemos relacionamentos, mudamos de trabalho, iniciamos projetos e definimos caminhos e, muitas vezes, somente depois perguntamos a Deus o que Ele pensa. Jesus nos apresenta outra direção: antes de grandes decisões, permaneça diante do Pai.
Se Jesus passou uma noite inteira orando antes de escolher os doze, talvez nossa pressa revele algo sobre a nossa confiança. Quantas decisões tomamos porque acreditamos que conseguimos resolver tudo sozinhos? Quantas vezes pedimos que Deus abençoe uma decisão que já tomamos, em vez de permitir que Ele participe do processo desde o início?
Orar não significa deixar de pensar, planejar ou assumir responsabilidades. Significa reconhecer que nossa visão é limitada e que Deus conhece aquilo que nós não conseguimos enxergar. A oração nos tira do centro e nos coloca novamente diante daqu'Ele que conhece o caminho inteiro.
Dependência
“Indo um pouco mais adiante, prostrou-se com o rosto em terra e orou: ‘Meu Pai, se for possível, afasta de mim este cálice; contudo, não seja como eu quero, mas sim como tu queres’.”
Mateus 26:39 (NVI)
A maior batalha de Jesus não começou quando os pregos atravessaram suas mãos. Antes da cruz, houve o Getsêmani. Ali, diante do sofrimento que se aproximava, Jesus orou. Ele sentiu profunda angústia e apresentou ao Pai aquilo que estava diante dele, mas terminou sua oração em submissão: “Não seja como Eu quero, mas sim como Tu queres.”
Isso nos mostra que oração não é uma ferramenta para convencer Deus a fazer aquilo que queremos. É relacionamento. É o lugar onde podemos apresentar nossa dor, nossos desejos, medos e decisões, enquanto permitimos que a vontade de Deus tenha a palavra final.
Jesus não entrou no Getsêmani tentando demonstrar independência. Ele entrou em comunhão. E essa mesma postura é apresentada à Igreja:
“Dediquem-se à oração, estejam alertas e sejam agradecidos.”
Colossenses 4:2 (NVI)
Ele orou
A independência pode impressionar as pessoas, mas a dependência agrada ao Pai. O mundo frequentemente celebra quem consegue fazer tudo sozinho. O Evangelho nos ensina a reconhecer que precisamos de Deus.
Se Jesus escolheu viver em comunhão e dependência do Pai, por que insistimos em viver como se não precisassemos orar?
Orar é admitir que somos fracos demais para vivermos sozinhos, sem Deus. É reconhecer que fomos criados para viver com Deus, que precisamos d'Ele em todos os passos, pois toda a sabedoria e força vêm d'Ele!
Jesus nos mostrou isso não apenas com palavras, mas com a própria vida. Antes das decisões, Ele orou. No sofrimento, Ele orou. Na angústia, Ele orou. Em todos os momentos, Ele permaneceu voltado para o Pai.
A oração não é sinal de fraqueza. É relacionamento.
E talvez uma das maiores evidências de maturidade espiritual não seja o quanto conseguimos fazer sozinhos, mas o quanto aprendemos a depender daqu'Ele que nunca quis que caminhássemos sem Ele.

por
Rapha Abreu é Jornalista e Produtora cultural, e faz parte da equipe de marketing, redação e produção de conteúdo da Mr. Rocco.


