Religião desobediente

Existe uma diferença profunda entre viver uma fé verdadeira e apenas cumprir uma agenda religiosa. Podemos estar presentes em cultos, conhecer doutrinas, participar de atividades e ainda assim manter o coração distante daquilo que Deus realmente deseja de nós. A religiosidade fiscaliza mais do que obedece.
A igreja local é importante. Caminhar com irmãos, servir, congregar e pertencer a uma comunidade de fé fazem parte da vida cristã. Mas existe um perigo quando começamos a tratar a presença no culto como a principal medida da nossa fidelidade, enquanto negligenciamos o amor, a justiça, a responsabilidade e o cuidado que deveriam acompanhar nossa vida todos os dias.
A presença física no templo não prova a presença de Deus na sua vida. Agenda não é essência. E ser juiz de quem vive de forma diferente de você está ainda mais distante do que significa ser templo. Nós não fomos chamados para transformar a adoração em uma simples programação ou para medir a fé dos outros pela nossa própria agenda.
Fiscalizar ou obedecer?
"Ai de vocês, mestres da lei e fariseus, hipócritas! Vocês dão o dízimo da hortelã, do endro e do cominho, mas negligenciam os preceitos mais importantes da lei: a justiça, a misericórdia e a fidelidade. Vocês devem praticar estas coisas, sem omitir aquelas."
Mateus 23:23 (NVI)
Jesus confrontou pessoas extremamente religiosas. Elas conheciam as Escrituras, seguiam regras e eram cuidadosas com detalhes da prática religiosa. Mas, ao mesmo tempo, negligenciavam aquilo que era mais importante: justiça, misericórdia e fidelidade.
É possível fazer tudo aquilo que a “agenda cristã” espera e ainda assim deixar de viver como Cristo. Nós podemos falar sobre serviço na igreja e negligenciar as responsabilidades que Deus colocou em nossas mãos na rotina. A religiosidade costuma ser mais confortável quando pode fiscalizar o comportamento dos outros do que quando precisa confrontar o próprio coração.
Jesus também confrontou diretamente aqueles que honravam a Deus com os lábios, mas mantinham o coração distante:
"Este povo me honra com os lábios, mas o seu coração está longe de mim."
Mateus 15:8 (NVI)
Nós engessamos a adoração em um dia e horário. Podemos acreditar que cumprir uma agenda é o mesmo que viver uma vida com Deus. Mas a reunião da igreja é um meio, não o objetivo final. Nenhuma agenda pode substituir uma vida de adoração.
Ser templo
"Vocês não sabem que são santuário de Deus e que o Espírito de Deus habita em vocês?"
1 Coríntios 3:16 (NVI)
Nós precisamos do templo. Precisamos nos reunir, caminhar com os irmãos, ouvir a Palavra, servir e viver como uma família. A fé cristã não foi feita para ser vivida em isolamento. Existe algo precioso na reunião do povo de Deus, na comunhão e na adoração coletiva.
Mas precisamos ainda mais nos tornar templo. A presença física em um prédio não garante uma vida habitada por Deus. Podemos estar em um lugar de adoração sem entregar verdadeiramente o coração ao Senhor. Por isso, o verdadeiro culto não pode ficar restrito a um endereço, um dia ou um horário. Ele precisa alcançar a totalidade da nossa vida.
"Portanto, irmãos, rogo-lhes pelas misericórdias de Deus que se ofereçam em sacrifício vivo, santo e agradável a Deus; este é o culto racional de vocês."
Romanos 12:1 (NVI)
O verdadeiro culto é inegociável e indispensável em nossas vidas. Ele acontece quando entregamos a Deus nossos pensamentos, decisões, relacionamentos, trabalho, responsabilidades e escolhas. O culto continua depois que a reunião termina. Ele continua quando ninguém está olhando.
Precisamos amar mais a intenção por trás da reunião do que simplesmente o formato dela. O objetivo de nos reunirmos é encontrar Deus, ouvir Sua Palavra, amar nossos irmãos e sermos transformados para viver como Cristo. Quando o formato se torna mais importante do que a essência, corremos o risco de defender a estrutura enquanto esquecemos o propósito.
O culto continua
"Portanto, enquanto temos oportunidade, façamos o bem a todos, especialmente aos da família da fé."
Gálatas 6:10 (NVI)
O culto não termina quando deixamos o prédio da igreja. A adoração continua na maneira como cumprimos nossas responsabilidades. Cada ambiente se torna uma oportunidade de revelar o caráter de Cristo.
Muitas vezes, faltar a uma responsabilidade que Deus colocou diretamente em nossas mãos pode revelar muito mais sobre o nosso coração do que faltar a um compromisso religioso.
Não abandone a igreja. Não deixe de caminhar com os irmãos. Não despreze a comunhão, a reunião e o serviço. Mas também não permita que o dia do culto se torne o único momento em que você tenta viver como cristão.
Porque, no fim, a verdadeira pergunta não é apenas se você esteve na igreja, mas se Cristo esteve presente na forma como você viveu depois que saiu dela. Não basta honrar a Deus com os lábios enquanto o coração permanece distante. A verdadeira adoração não cabe em uma agenda. Ela precisa transbordar para toda a vida.
por
Rapha Abreu


