O vício de ser visto

Quão desesperadamente você deseja que as pessoas gostem de você?
É bom ser amado. É bom saber que somos queridos, respeitados e bem-vindos. O problema começa quando o desejo de ser aceito deixa de ser apenas uma vontade e se transforma em uma necessidade. Quando a aprovação dos outros passa a determinar nossas escolhas, nossa identidade e até mesmo a forma como enxergamos a nós mesmos.
Existe uma diferença entre querer ser amado e precisar ser aprovado. Uma coisa nasce do relacionamento; a outra pode nascer do medo. E, quando vivemos para os olhos humanos, nunca teremos olhos suficientes sobre nós para finalmente nos sentirmos satisfeitos.
Aprovação necessária
“Pois eles amaram mais a glória dos homens do que a glória de Deus.”
João 12:43 (NVI)
Nós não precisamos de mais estatísticas sobre a nossa vida. Já temos a maior delas: fomos criados por Deus e conhecidos por Ele. Ainda assim, muitas vezes vivemos tentando aumentar os números da nossa aprovação: mais elogios, mais pessoas gostando de nós, menos críticas, mais reconhecimento, mais olhares sobre aquilo que fazemos. Parece que, se conseguirmos ser suficientemente admirados, finalmente estaremos seguros.
Mas essa euforia nunca dura. O elogio chega e, por alguns instantes, nos sentimos preenchidos. Depois, precisamos de outro, e então outro, e outro...
Uma crítica aparece e, aquilo que construímos dentro de nós, parece desmoronar. Então buscamos novamente aprovação. É como um vício: quanto mais recebemos, mais precisamos receber. E quanto mais dependemos disso, mais vulneráveis nos tornamos à opinião de qualquer pessoa.
Por isso, Paulo escreve em Gálatas 1:10 que não devemos viver como quem busca constantemente a aprovação dos homens, mas como servos de Cristo:
“Estamos tentando ganhar a aprovação de Deus, e não a dos homens. Se ainda estivesse tentando agradar aos homens, não seria servo de Cristo.”
A pergunta, então, não é simplesmente: “As pessoas gostam de mim?” A pergunta é: “Por quem eu estou vivendo?”
Chamados de filho
“Vejam que grande amor o Pai nos concedeu: que fôssemos chamados filhos de Deus!”
1 João 3:1 (NVI)
Existe algo que a aprovação humana jamais poderá nos dar: identidade. Pessoas podem elogiar aquilo que fazemos, admirar nossos talentos e reconhecer nossas conquistas, mas somente Deus pode nos dizer quem somos. E, em Cristo, Ele nos chama de filhos.
Essa é uma verdade que muda tudo. Quando compreendemos que somos amados por Deus não porque somos perfeitos, mas porque Ele decidiu nos amar e nos alcançar pela graça, a necessidade desesperada de provar nosso valor começa a perder força. Não precisamos construir uma imagem para conquistar aquilo que Cristo já nos ofereceu. Não precisamos convencer o mundo de que somos importantes quando já fomos recebidos pelo próprio Deus.
Isso não significa que devemos deixar de cuidar da nossa imagem ou viver de qualquer maneira. Pelo contrário. Somos chamados a viver de forma que Cristo seja visto em nós:
“Assim brilhe a luz de vocês diante dos homens, para que vejam as suas boas obras e glorifiquem ao Pai de vocês, que está nos céus.”
Mateus 5:16 (NVI)
Perceba a diferença: não vivemos para nossa glória, mas para que, ao nos verem, encontrem a glória de Deus. Nossa imagem deixa de ser um altar para o nosso ego e passa a ser uma janela para Cristo.
Glória de Deus
“Quem beber da água que eu lhe der nunca mais terá sede.”
João 4:14 (NVI)
Talvez o verdadeiro problema não seja aquilo que estamos tentando conseguir dos outros, mas aquilo que estamos tentando substituir. Estamos tentando matar a sede da alma com elogios, reconhecimento, seguidores, aprovação e aceitação. Mas nenhuma dessas coisas foi criada para ocupar o lugar de Deus.
Jesus apresenta uma água diferente. Uma água que não precisa ser constantemente renovada pelo olhar das pessoas, ela permanece a mesma e com a mesma eficácia, porque nasce do próprio Deus e alcança o interior. A Palavra também descreve a doçura dessa presença em Salmos 119:103:
“Como são doces para o meu paladar as tuas palavras! Mais do que o mel para a minha boca!”
Quando provamos da graça de Deus, começamos a perceber que aquilo que o mundo oferece é pequeno demais para preencher aquilo que somente Cristo pode preencher. O elogio humano pode ser agradável, mas não é suficiente. A aprovação de alguém pode alegrar o coração, mas não pode sustentar uma identidade. Podemos perder aplausos, posições, reconhecimento e até pessoas ao nosso redor e, ainda assim, termos tudo: Cristo!
É por isso que a fé nos liberta das amarras dos olhos humanos. Não precisamos passar a vida tentando construir uma própria glória. Podemos descansar na glória daquele que nos criou. Podemos fazer o bem sem precisar ser vistos. Podemos servir sem receber reconhecimento. Podemos ser criticados sem desmoronar. Podemos ser esquecidos pelos homens sem sermos esquecidos por Deus.
Nem mesmo Jesus agradou a todos. Ele foi rejeitado, criticado, incompreendido e então, crucificado. Ainda assim, não permitiu que a opinião das pessoas determinasse Sua missão. Sua vida estava voltada para o Pai.
Quando nossos olhos estão fixos em Cristo, o vício de ser visto começa a morrer. Nós já temos o olhar de Cristo sobre nós, porque viver para conquistar outros? Mesmo que não tenhamos mais nada, se tivermos Cristo, já teremos tudo.
E isso é infinitamente mais doce do que qualquer elogio humano.

por
Rapha Abreu é Jornalista e Produtora cultural, e faz parte da equipe de marketing, redação e produção de conteúdo da Mr. Rocco.


