Termômetro da prosperidade

Vivemos em uma cultura que facilmente associa sucesso, dinheiro e conforto à bênção de Deus. Quando alguém prospera, logo pensamos que encontrou o favor divino, e se alguém enfrenta perdas, escassez ou sofrimento, podemos nos perguntar o que essa pessoa fez de errado. Mas a Bíblia não apresenta a prosperidade material como o termômetro da presença de Deus. As Escrituras mostram homens e mulheres fiéis atravessando desertos, enquanto pessoas distantes de Deus desfrutavam de abundância.
Talvez o nosso maior engano seja confundir o favor de Deus com o conforto da vida. Deus pode nos conceder recursos, mas Sua maior dádiva nunca foi aquilo que podemos possuir. O maior presente de Deus é o próprio Deus. Será que estamos reconhecendo Sua presença mesmo quando não temos aquilo que gostaríamos de ter?.
Medindo pelo que temos
“...Não temas, Abrão, Eu Sou o teu escudo, o teu grandíssimo Galardão.”
Gênesis 15:1 (ACF)
Quando Deus falou com Abraão, Sua promessa não começou com riquezas, propriedades ou conforto. Deus apresentou a Si mesmo como sua recompensa. Isso muda completamente a maneira como entendemos a bênção. Abraão receberia promessas materiais e uma descendência numerosa, mas antes de qualquer coisa, ele teria algo infinitamente maior: o próprio Deus como seu escudo e sua recompensa.
A Bíblia também nos mostra que pessoas abençoadas sofreram profundamente. Jó perdeu seus bens, seus filhos e sua saúde, mas sua perda não significava que Deus havia deixado de estar com ele. Da mesma maneira, encontramos pessoas distantes de Deus prosperando materialmente. O Salmo 73 descreve justamente a perplexidade de Asafe ao observar a prosperidade dos arrogantes. Se posses fossem uma prova direta da aprovação de Deus, precisaríamos concluir algo que as próprias Escrituras não permitem.
Por isso, não devemos usar nossa conta bancária ou tudo aquilo que temos em nosso conforto como régua para medir a presença de Deus. Podemos ter muito e estar espiritualmente distantes, ou termos pouco e experimentar uma profunda comunhão com o Senhor. A verdadeira bênção começa quando entendemos que Deus não é apenas aquele que pode nos dar coisas. Ele é a nossa maior riqueza.
Responsabilidade
“É mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no Reino de Deus.”
Mateus 19:24 (NVI)
Jesus não apresentou a riqueza como evidência automática de espiritualidade. Pelo contrário, Ele mostrou o perigo que a posse pode representar para o coração. O problema não está simplesmente em possuir recursos, mas em permitir que os recursos nos possuam. Quando aquilo que temos começa a ocupar o lugar que pertence a Deus, a bênção recebida pode se transformar em uma fonte de orgulho, autossuficiência e falsa segurança.
Isso significa que riqueza também pode ser uma provação espiritual. Quanto mais recebemos, maior pode ser nossa responsabilidade diante de Deus. O dinheiro pode revelar aquilo que realmente governa o coração: podemos utilizá-lo para servir, repartir e cuidar de pessoas, ou podemos transformá-lo em um instrumento de exibição e satisfação pessoal. Ter recursos não torna alguém mais amado por Deus, assim como não tê-los não significa ser alguém menos amado.
Jesus nos chama para uma realidade diferente daquela ensinada pelo mundo, nossa segurança não está naquilo que conseguimos acumular. Podemos perder propriedades, dinheiro, posições e bens, mas existe uma riqueza que não depende das circunstâncias. Quando Cristo é o nosso tesouro, aquilo que possuímos deixa de ser nossa identidade e passa a ser uma responsabilidade que administramos diante de Deus.
Recursos têm propósito
“Vocês serão enriquecidos em tudo para que possam ser generosos em qualquer ocasião e, por nosso intermédio, a sua generosidade resulte em ação de graças a Deus.”
2 Coríntios 9:11 (NVI)
A Bíblia não ensina que todo recurso material é mau ou que Deus nunca concede prosperidade. Há momentos em que Deus permite que pessoas tenham abundância. Mas, em 2 Coríntios 8–9, Paulo apresenta uma perspectiva diferente daquela que transforma prosperidade em troféu pessoal. Os recursos recebidos devem produzir generosidade. A abundância encontra seu propósito quando se transforma em instrumento de amor e serviço.
Por isso, prosperidade, quando recebida, não precisa ser vista como uma medalha espiritual. Pode ser uma ferramenta colocada nas mãos de alguém para abençoar outras pessoas. O que Deus coloca em nossas mãos também pode revelar o que existe em nosso coração. Quanto mais recebemos, mais somos convidados a nos perguntar: “Como posso usar isso para glorificar a Deus e servir ao próximo?”
Paulo compreendeu uma riqueza que não dependia das circunstâncias. Ele escreveu: “Como pobres, mas enriquecendo muitos; como nada tendo, mas possuindo tudo” (2 Coríntios 6:10). Essa é uma perspectiva completamente diferente sobre prosperidade. O cristão pode atravessar abundância sem colocar sua esperança nela e pode atravessar escassez sem concluir que Deus o abandonou.
A verdadeira bênção não está necessariamente em ter mais, mas em pertencer a Cristo. É possível estar no deserto e ainda estar acompanhado por Deus. É possível ter uma mesa simples e um coração cheio de gratidão. É possível perder coisas e continuar possuindo aquilo que ninguém pode roubar.
Jesus chamou de bem-aventurados não simplesmente os ricos, os confortáveis ou os que acumulam, mas aqueles que reconhecem sua dependência de Deus, os que têm fome e sede de justiça, os misericordiosos, os puros de coração e os que permanecem fiéis mesmo em meio às dificuldades (Mateus 5:3-12).
A bênção não é medida pelo tamanho do que está em nossas mãos, mas pela presença daqu'Ele a quem entregamos nosso coração. Se Deus nos der recursos, que saibamos recebê-los com gratidão, administrá-los com sabedoria e compartilhá-los com generosidade. E, se atravessarmos um tempo de falta, que não confundamos a ausência de conforto com a ausência de Deus. Porque quem tem Cristo pode descobrir, até no deserto, uma riqueza que nenhuma circunstância é capaz de tirar.

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Rapha Abreu é Jornalista e Produtora cultural, e faz parte da equipe de marketing, redação e produção de conteúdo da Mr. Rocco.


