A liberdade do mal

Existem perguntas que surgem quando a dor chega. Por que isso aconteceu? Por que Deus permitiu? Por que uma tragédia atingiu justamente aquela pessoa? Diante de desastres, acidentes, perdas e sofrimentos, é natural tentar encontrar uma explicação. Mas nem toda dor possui um “porquê” que conseguiremos compreender.
A fé cristã não nos promete respostas para todas as tragédias, mas Deus não é indiferente à dor. Ele é a fonte do bem, entrou na história humana, sofreu conosco e continua sustentando aqueles que atravessam o vale. Talvez a pergunta não seja apenas “por que o mal existe?”, mas também “como Deus permanece presente quando o mal acontece?”.
O mal moral
“Deus viu tudo o que havia feito, e tudo havia ficado muito bom.”
Gênesis 1:31 (NVI)
A Bíblia apresenta a criação como algo originalmente bom. O mal não aparece como parte de um projeto defeituoso de Deus, mas como consequência da ruptura causada pelo pecado e pelo afastamento da criatura de seu Criador. Deus criou seres humanos com liberdade porque amor verdadeiro não pode ser produzido à força. E liberdade, embora seja um presente, também torna possível escolher contra o bem.
Isso ajuda a compreender especialmente o mal moral: violência, injustiça, abandono, mentira, egoísmo e tantas outras coisas que nascem das decisões humanas. Pequenas escolhas podem abrir caminhos que produzem consequências muito maiores do que imaginávamos. Nem sempre conseguimos enxergar toda a cadeia de acontecimentos que uma decisão permite, mas nossas ações possuem consequências.
Isso, porém, não significa que toda tragédia seja resultado direto de um pecado específico. Vivemos em um mundo quebrado, onde pessoas também são atingidas por acontecimentos que não escolheram. Um acidente pode acontecer, a doença pode surgir, uma tempestade pode destruir uma casa e a perda pode chegar sem aviso. Existe uma causa para o acontecimento, mas isso não significa que teremos uma explicação capaz de responder a todos os nossos “porquês”.
A própria Bíblia nos mostra que nem todo sofrimento pode ser reduzido a uma relação simples entre culpa e consequência. Há mistérios que permanecem além da nossa compreensão.
Distante da dor
“Jesus chorou.”
João 11:35 (NVI)
Talvez uma das respostas mais profundas do cristianismo para o problema do mal não seja uma explicação, mas uma pessoa. Deus não observou o sofrimento humano de longe. Em Jesus, Ele entrou na nossa história. Sentiu fome, cansaço, rejeição, abandono e dor. Chorou diante da morte de Lázaro e, posteriormente, enfrentou a própria morte.
Deus não ficou distante daquilo que nos machuca. Na cruz, Cristo experimentou sofrimento, injustiça e abandono de uma maneira que ultrapassa nossa compreensão. Deus não é um Deus indiferente à dor humana. Ele é o Deus que se aproxima dela, entra nela e, na ressurreição, mostra que a morte e o sofrimento não terão a palavra final.
Por isso, quando alguém pergunta: “Se Deus é bom, por que existe tanto mal?”, a resposta cristã não precisa ser fingir que a dor é pequena ou que conseguimos explicar cada tragédia. Podemos reconhecer que existem coisas grandes, que não compreendemos e, ainda assim, permanecer confiantes no caráter de Deus, que é maior que elas.
A dor pode gerar perguntas, mas não prova que Deus não existe. O sofrimento pode abalar nossas certezas, mas não significa que o Senhor tenha abandonado Sua criação. Muitas vezes, justamente no lugar onde não conseguimos compreender o que está acontecendo, somos convidados a confiar em Quem continua conosco.
Em meio ao caos
“Mantenham-se atentos! Estejam sempre alertas!”
Marcos 13:33 (NVI)
Não controlamos tudo o que acontece ao nosso redor. Não conseguimos impedir todos os acidentes, prever todas as perdas ou compreender todos os acontecimentos. Mas existe uma realidade que sustenta o cristão: a graça de Deus.
Quem vive pela graça recebe um sustento que não merece e que não conseguiria produzir sozinho. A misericórdia do Senhor muitas vezes age de maneiras que sequer percebemos. Talvez existam livramentos que nunca saberemos que aconteceram. Talvez algumas situações que pareciam pequenas tenham impedido consequências muito maiores. Não podemos afirmar que toda tragédia evitada foi diretamente uma intervenção divina específica, mas podemos confiar que Deus permanece soberano e misericordioso mesmo quando não conseguimos enxergar Sua mão.
E a cura nem sempre acontece da maneira que esperamos. Às vezes, Deus cura fisicamente. Outras vezes, sustenta o coração para atravessar aquilo que não foi retirado. Às vezes, restaura uma circunstância; outras vezes, transforma uma pessoa no meio dela. A presença de Deus não significa necessariamente que nada ruim acontecerá, mas significa que o mal não precisa ter a palavra final sobre nossa história.
Por isso, prepare suas lamparinas e mantenha-as acesas. Não sabemos quando a noite chegará, nem quais acontecimentos encontraremos pelo caminho. Mas sabemos em quem podemos confiar. A esperança cristã não está em uma vida sem perdas, mas em um Deus que permanece conosco em meio a elas e promete uma realidade onde o sofrimento finalmente terá fim.
Talvez nunca saibamos por que algo aconteceu. Talvez algumas perguntas permaneçam sem resposta até o fim desta vida. Mas podemos saber quem Deus é.
O mal não torna Deus menos bom. A existência da dor não apaga Sua presença. E aquilo que não conseguimos compreender não precisa nos impedir de confiar.
Porque, se Deus é a fonte de todo bem, nossa esperança não está em compreender cada sombra, mas em permanecer próximos da Luz. E, mesmo quando não conseguimos enxergar o caminho, podemos continuar caminhando com aqu'Ele que nunca deixou de nos sustentar.

por
Rapha Abreu é Jornalista e Produtora cultural, e faz parte da equipe de marketing, redação e produção de conteúdo da Mr. Rocco.


