Muitas vezes, quando falhamos, o primeiro sentimento que surge não é arrependimento, mas vergonha. Ela nos faz recuar, silenciar e nos afastar de Deus, como se o erro tivesse nos tornado indignos de Sua presença. Porém, essa reação revela algo mais profundo: ainda acreditamos, em algum nível, que o Evangelho gira em torno de nós. Mas o centro nunca fomos nós. Sempre foi Cristo.
Aceitos pelas obras
“Ouvindo o homem e sua mulher os passos do Senhor Deus que andava pelo jardim quando soprava a brisa do dia, esconderam-se da presença do Senhor Deus entre as árvores do jardim. Mas o Senhor Deus chamou o homem, perguntando: ‘Onde está você?’. E ele respondeu: ‘Ouvi teus passos no jardim e fiquei com medo, porque estava nu; por isso me escondi’”.
Gênesis 3:8-10 (NVI)
Desde o Éden, a vergonha tem sido uma resposta humana ao pecado. Quando Adão e Eva pecaram, não correram para Deus, esconderam-se d’Ele. A culpa gerou distância, e a distância produziu medo. A vergonha nasce quando acreditamos que Deus nos olha a partir do nosso erro, e não a partir do Seu amor.
Quando erramos e sentimos dificuldade de nos aproximar, isso revela que ainda pensamos que somos aceitos por desempenho. Acreditamos que Deus se agrada quando acertamos e se afasta quando falhamos. Mas o Evangelho não é um sistema de mérito, é uma mensagem de redenção. “Agora, pois, nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus” (Romanos 8:1).
A vergonha nos faz olhar para nós mesmos, enquanto a graça nos convida a olhar para Cristo. O problema não é reconhecer o erro, mas permitir que ele defina nossa identidade. O erro existe, mas ele não tem a palavra final. A cruz já falou mais alto.
Buscamos pois já recebemos
“Nisto está o amor, não em que nós tenhamos amado a Deus, mas em que Ele nos amou a nós, e enviou seu Filho para propiciação pelos nossos pecados.”
1 João 4:10 (ACF)
Muitas vezes acreditamos que somos amados porque oramos, buscamos, obedecemos e permanecemos. Mas a ordem do Evangelho é inversa: nós buscamos, oramos, obedecemos e permanecemos porque já fomos amados. O amor de Deus não é resposta ao nosso esforço, é a origem dele. Nossa ação é pura gratidão.
A graça antecede qualquer movimento humano. Antes de qualquer decisão nossa, Ele já havia decidido nos amar. Antes de qualquer resposta nossa, Ele já havia se entregado.
Quando tentamos transformar obediência em moeda de troca, distorcemos o Evangelho. Não agimos para receber algo de Deus, mas sim em gratidão pelo que já recebemos. “Pois vocês são salvos pela graça, por meio da fé, e isto não vem de vocês, é dom de Deus; não por obras, para que ninguém se glorie.” (Efésios 2:8,9)
A graça transforma
“Ou será que você despreza as riquezas da sua bondade, tolerância e paciência, não reconhecendo que a bondade de Deus o leva ao arrependimento?”
Romanos 2:4 (NVI)
A graça de Deus não produz acomodação, mas transformação. Ela não nos constrange por medo, mas por amor. O poder e amor de Deus nos constrange gerando temor, isso é diferente de vergonha. A vergonha paralisa, afasta e esfria. A graça aproxima, cura e amadurece.
Errar não nos torna indignos, porque nunca fomos dignos. Tudo sempre foi imerecido. E esse é o mais belo da graça de Deus.
O que nos aproxima de Deus não é a nossa perfeição, mas a d’Ele. Um coração rendido, disposto a se levantar, mudar e caminhar novamente se torna sensível à voz do Pai, para receber tudo o que Ele já ofereceu desde antes da fundação do mundo. Nosso caminhar com Ele não muda quem Deus é, mas muda nossos passos.
O Evangelho não chama seguidores perfeitos, mas filhos entregues. Filhos que aprendem a domesticar vontades, alinhar sonhos, diminuir o ego e se humilhar diante de Deus. Não somos protagonistas da história. É sobre Cristo, Seu amor e Sua obra. A graça nos educa a viver de forma santa (Tito 2:11–12), por temor ao nos aproximarmos da graça diariamente.

